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Artista Plástico
António Leitão, artista plástico, natural de Castelo Bom, Beira Alta, foi à época um pintor muito enigmático.
António Leitão constituiu-se sempre como um bom exemplo da afirmação.
Este pintor quinhentista maneirista de óleo e de fresco, foi esquecido, ainda se chamava “mui insigne pintor” em 1622 por perdurar as memórias das suas qualidades. Estando perante tábuas como a “Visitação da Virgem a Santa Isabel” da capela de Sant’Ana de Cepões na região de Lamego, que foram pintadas por ele em 1565, o “Pentecostes” na Capela de Santo António em Freixo de Espada-à-Cinta, pintado cerca de 1580, torna-se evidente a mui alta qualidade artística que urge ultrapassar através do trabalho da História e da Arte. Este quadro “Pentecostes” que no verão de 2009 foi recenseado, é uma peça de grande valia iconográfica, até porque se trata de uma composição de pendor ecumenista e que integra as mais antigas representações de figuras nipónicas na arte europeia, coeva pela passagem na corte portuguesa em 1584 da comitiva japonesa enviada ao Papa e descrita na crónica do padre jesuíta Duarte de Sande, o que evoca o colorido exótico das descrições coetâneas do padre Luís Fróis em História Japam, do mercador-escritor Jorge Álvares e de Fernão de Magalhães, o que torna a pintura do nosso conterrâneo pintor António Leitão, pela sua atualidade, singular testemunho artístico do encontro de culturas entre Portugal e o Oriente (Japão) num momento em que os missionários jesuítas na Ásia viviam tempos de implementação e, dada a recetividade de aparente esplendor.
O nosso pintor é ainda pouco conhecido, nasceu em 1530 em Castelo Bom, na raia beirã em plena Beira Alta, no seio de família de “homens muito principaes dos melhores deste reino” Graças ao apoio do seu tio Domingos Leitão, figura importante da diplomacia do tempo de D. João III, e que foi embaixador da Infanta Dona Maria na Flandres e em França, António Leitão pôde vir cedo para Lisboa e entrar ao serviço da Infanta, a quem serviu como “moço de Câmara”. A Infanta ir-lhe-á custear, em 1562, um estágio em Roma para aí “ir aprefeiçoar” a arte da pintura.
Entretanto foi Soldado na Flandres, e estadeou, ao serviço da Infanta na cidade de Antuérpia, onde casou com a pintora flamenga Luzia dos Reis.
O casal teve 3 filhos durante os anos em que moraram em Lamego. Dois deles foram Cónegos na Sé em Miranda do Douro e Maria Leitão veio a casar com Gonçalo Rodrigues, boticário da Casa do Duque de Bragança. Noutros documentos mostram que entre 1564 e 1580 residiu entre Lamego, Pinhel e Castelo Bom. Em 1581, o apoio ao infeliz candidato ao trono, D. António Prior do Crato, levou o casal a autoexilar-se em Miranda do Douro e de seguida em Bragança, onde faleceram e foram sepultados na igreja de São João Baptista, mas com data incerta após o ano de 1595.
Alguns relatos recolhidos após a sua morte, o pintor António Leitão residiram alguns anos na vila natal depois de regressar da Flandres. Era familiar de outro ilustre eupuryensis nascido em Castelo Bom, o Dr. António Leitão, estudante na Sorbonne em 1542 e professor de Filosofia em Santa Bárbara em 1547.
Ele e sua mulher Luzia dos Reis, “Senhora muito fermosa” viviam em casa apalaçada da estirpe dos Leitões, “Nobres de quatro costados”, sendo descrito o seu alto estatuto social, pois usava cavalo e mula, tinha “estado de se servir a mesa com muitos criados”, e mostrava-se sempre em público com o seu “chapeo de veludo verde com huma trança de ouro e hum anel douro grande com as armas da senhora Iffanta”.
Fiel aos valores de liberdade, de nobiltà e de virtù que os melhores artistas do Maneirismo assumiram pela Europa, António Leitão vivia em castelo Bom com a ostentação de um nobre, mostrando-se a cavalo, armado, com o anel de ouro e as armas de D. Maria, e signos de poder estatutário. “Homem nobre e cristão velho de todos quatro costados” foi artista de corte com sólida formação em Roma, Lisboa e Antuérpia, centros do Maneirismo europeu. Exato contemporâneo de Campelo, Cristóvão de Morais, Francisco de Holanda, Gaspar Dias, Lourenço de Salzedo, Diogo Teixeira, Giraldo Fernandes de Prado e outros nomes maiores da arte maneirista, formou-se de certo modo na mesma linhagem estética. É possível que os passos deste aventuroso e quase romanesco personagem se cruzassem com os de intelectuais da corte como Francisco da Holanda ou o poeta Luís Vaz de Camões. Depois de anos juvenis na corte da Infanta, o fidalgo-pintor passa por Roma e, findo o seu tirocínio com o tio nos Países Baixos, retorna à região de origem.
Em 1564-65 pintou o retábulo da Misericórdia de Lamego. Em 1571 vivia entre essa cidade e o seu solar em castelo Bom. Em Lamego possuiu propriedades e bens. Também morou um tempo na Cidade de Pinhel. Cerca de 1575, pintou o retábulo da igreja matriz de Vila Nova de Foz Côa, terra do senhor Rui Gomes da Silva, príncipe de Ebolí. Após a crise dinástica, em 1581 radicou-se em Bragança e Miranda do Douro. Outras obras podem vir a ser assacadas a seus pincéis, como o exemplo dos frescos da galilé da Capela da Senhora da Teixeira em torre de Moncorvo, e de sua mulher das aflamengadas pinturinhas de um calendário ou Alegorias dos Meses na sacristia da Sé de Miranda do Douro.
A tábua “Pentecostes” é uma das novidades recenseada, conta-se a identificação desta singular datada do século XVI tardio com a Descida do Espírito Santo sobre a Virgem Maria e os Apóstolos, esquecida e em mau estado de conservação. A pintura ostenta a primitiva estrutura retabular, mostra especificidades de estilo e uma inesperada largueza de composição, pois reúne em torno da Virgem Maria, ladeada por São João Evangelista e São Pedro, vinte e oito figuras dispostas em vários planos dentro de um espaço clássico de planta centralizada que se inspira no Panteão de Roma. Esse grupo integra os apóstolos e discípulos de Cristo juntamente com personagens contemporâneas entre eles casais de nobres estirpe, frades, mercadores, um berbere, e até três figuras asiáticas com trajes e chapéus nipónicos. Tudo revela artifícios de uma cultura artística invejável, formatada por experiência viageira. A composição reúne quatro dezenas de figuras, trajando à época, a receberem as línguas de fogo em torno da Virgem Maria e dos santos apóstolos pedro e João, entre elas figuras nobres, burgueses, clérigos, mercadores, mouriscos e, ainda, três personagens de japoneses com os seus típicos trajes orientais. Este pormenor, de todo inesperado, torna a movimentada composição pintada para esta confraria transmontana num raro testemunho da vertente ecumenista da Contra-reforma católica, através de uma interpretação livre que integra vários povos e culturas sob o halo luminoso do Espírito santo.
As pinturas do nosso artista mostram que o maneirista era senhor de um estilo personalizado no desenho e no forte cromatismo utilizado, com influências de 3 níveis:
- A tradição do Renascimento manuelino-joanino, patente na escolha de certas soluções e modelos mais tradicionalistas (com a retoma das gravuras de Durer, Lucas Van Leyden, e ainda a inspiração em módulos “ferreirinescos” e inclusivamente “gãovasquinos”;
- A influência da Bella Maniera romana, de pintores como Giorgio Vasari e os Zuccri, as gravuras rafaelescas de Marcoantónio raimondi e, inclusive, certas receitas dos círculos miguelangescos;
- E a influência do romantismo flamenco de pintores como Michel Coxie, por exemplo, tudo mesclado num discurso contra-reformista muito pessoal em que a criação das imagens na sua maioria destinadas ao culto, ganha um sabor eloquente que se adequa ao tipo de mercados que António Leitão encontrou nas Dioceses do Norte do país.
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